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Capítulo 1

Tudo estava como sempre tinha estado na Escola dos Póneis no País Mágico Acima das Nuvens. Tudo estava basicamente como antes na Escola dos Póneis. O Toni suspirou enquanto escovava os dentes, tratava da crina e lavava o focinho. Tal como tinha feito ontem. E anteontem. E antes de anteontem, já agora.  

 

Na pista de corrida, todos os póneis davam voltas e mais voltas. Tal como costumavam fazer. Estavam a praticar o trote, que o Toni detestava. Tanto por não ser muito bom nisso, como por achar terrivelmente aborrecido.  

 

O Toni começou a pensar em voz alta (como fazia algumas vezes): "Tem de haver outras coisas na vida para além de trotar. E a passo". De repente, o Toni foi contra o pónei à frente dele, que tinha parado bruscamente.  

 

— O-o que disseste? — gritaram os outros póneis em coro. O Loni, a Pati, o Roni e todos os outros. O Toni corou um bocado, porque os outros não deviam ter ouvido o que ele estava a pensar. Mas ganhou ânimo.  

 

— Bem... alguma vez pensaram que tem de haver outras coisas para fazer além de andar a marcar passo o dia todo? 

Acordamos, comemos, trotamos, dormimos. — É assim que as coisas são, e é assim que sempre foram — disseram os outros póneis.  

— Mas e se eu quiser outra coisa? — sugeriu o Toni.  

— Acordamos, comemos, trotamos, dormimos. É assim que é, e sempre foi — disseram novamente os outros póneis. E assim começaram a trotar. Mas o Toni não se juntou a eles.  

 

Algum tempo depois, os outros póneis repararam no Toni, que se recusava a continuar. E pararam.  

— Por que não trotas? 

— Não quero, quero fazer outra coisa. 

O Joni, o pónei mais cinzento e que era o melhor no trote, aproximou-se do Toni.  

— O que queres fazer então? 

— Quero sair e ver o mundo. 

— NÃO queiras isso! 
— Porquê? — perguntou o Toni.  

— Aqui, na Escola dos Póneis, sabes sempre com o que contar. O mundo lá fora é grande, mau e perigoso. 

— Isso vou eu descobrir por mim próprio — declarou o Toni.  

Todos ficaram em silêncio. O Joni riu-se por entre os dentes.  

— Muito bem. E quão corajoso és? Se calhar até vais lutar com o dragão Drago? 

Os outros póneis riram-se a valer. Todos sabiam que o Drago era o animal mais perigoso de todo o mundo e que ninguém — ninguém! — se atrevia a lutar com ele.  

O Toni engoliu em seco.  

— Sim, é exatamente isso que vou fazer. 

 

E então fez as malas e pôs-se a caminho. Para lutar com o temido dragão.  

 

 

Capítulo 2

Para dizer a verdade, se calhar ir procurar o perigoso dragão talvez não tenha sido a melhor ideia do Toni. Mas tinha de cumprir o prometido. Especialmente o que tinha prometido a si próprio. E então lá foi o Toni. Descobrir tudo o que havia para descobrir na Terra Mágica Acima das Nuvens.  

 

Atravessou uma floresta. Daquelas escuras e assustadoras. Passado um bocado, chegou a uma ponte sobre um rio. Não pensou muito sobre o assunto e estava a atravessar a ponte quando, de repente, um ninja saltou para a frente dele.  

 

— Aonde pensas que vais? 

— Estava só a atravessar a ponte — disse o Toni.  

— Bem, não é assim que funciona. Porque eu sou o guardião da ponte — disse o ninja, soando muito importante.  

—Isso parece fixe. O que significa? — perguntou o Toni.  

— Bem, significa que eu guardo a ponte. E garanto que não é atravessada por qualquer um. 

O Toni pensou por um momento. Ele não achava que era "qualquer um", era o Toni e ia numa aventura.  

— Claro, acho muito bem. Mas posso atravessar a ponte? — perguntou.  

O ninja fez um barulho jocoso com o nariz.  

— Diz-me, não sabes nada sobre guardiões de pontes? 

— Nem por isso — admitiu o Toni.  

— Na verdade, é a primeira vez que saio da Escola dos Póneis, por isso há imensas coisas que eu não sei. 

O ninja abanou a cabeça.  

— Bem, para atravessar a ponte é preciso responder a uma pergunta. Uma pergunta difícil! Uma pergunta mesmo muito difícil! 

— Bem, espero conseguir fazer isso — disse o Toni.  

 

O Toni olhou para o ninja por um momento. O ninja olhou para o Toni. Ninguém disse nada durante algum tempo.  

— Hum... E qual é a pergunta? 

— Espera, tenho de pensar numa! Na verdade, é raro aparecer alguém aqui. Estou um pouco enferrujado. 

O Toni sentou-se e esperou pacientemente.  

 

O ninja fez um movimento repentino.  

— Já sei! Mas ficas avisado. É uma pergunta mesmo muito difícil. Estás preparado? 

O Toni acenou com a cabeça.  

— Qual é a tua... cor favorita? 

— Bem, é mesmo difícil — disse o Toni. Qual é a tua, ninja? 

— Preto, obviamente! 

— Ah sim. Acho que gosto mais de cor-de-rosa. Ou... espera. Cor-de-laranja! Não... verde. Escolho verde. 

— Não podes simplesmente dizer todas as cores que existem. Sou o guardião da ponte e exijo uma resposta definitiva. 

— Verde — disse o Toni com voz firme. 

— Então vamos lá. Podes atravessar a ponte — disse o ninja — mas para onde vais mesmo? 

— Vou procurar e lutar com o dragão Drago. 

O ninja ficou pálido.  

— Essa é uma má ideia. O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo! Se calhar é melhor ficares aqui comigo. Assim, podemos atirar estrelas de ninja e fazer outras coisas de ninjas? 

O Toni sorriu e abanou a cabeça.  

— É muito simpático da tua parte, ninja, mas prometi a mim mesmo que iria encontrar o dragão Drago, e é isso que vou fazer. Mas se calhar ainda nos vemos outra vez. 

Capítulo 3

 

O Toni tinha ficado com fome a falar com o ninja guardião da ponte e a responder a perguntas e isso tudo, e decidiu almoçar.  

 

Encontrou um lugar na floresta com umas rochas grandes para se sentar, enquanto o sol espreitava pelas copas das árvores. Tirou o almoço da embalagem e estava prestes a dar uma dentada na sandes quando ouviu algo atrás de um arbusto.  

 

— Psiu! 

O Toni olhou fixamente para o arbusto.  

— Psiu — ouviu-se outra vez.  

Isto era muito estranho. O Toni levantou-se e espreitou por trás do arbusto. Era a entrada para uma gruta. E, lá dentro, o Toni viu dois olhos a brilhar no escuro.  

— Hum... Olá?  

O Toni nunca tinha visto olhos tão estranhos nem falado com alguém escondido numa gruta. Portanto, não sabia o que mais dizer.  

— Olá — sussurrou a voz dentro da gruta.  

— Tens comida? 

— Sim, tenho. Se vieres cá fora até ao sol podemos partilhar o meu almoço — disse o Toni. Seria bom ter companhia para comer.  

Os olhos aproximaram-se do Toni, que agora conseguia ver que pertenciam a um vampiro pálido e magro.  

— Não posso. Sou um vampiro — disse o vampiro.  

— E depois? — disse o Toni.  

— Não suportamos luz. Nada de nada. Por isso, não posso sair e procurar comida durante o dia, e tenho um pouco de medo do escuro, por isso também não sou grande coisa para sair à noite.  

— Bem, que chatice. Não é nada fácil. Mas se te sentares aqui à sombra debaixo da árvore posso sentar-me ao teu lado ao sol e, assim, partilhar o meu almoço. Tenho sandes e tangerinas e mais — disse o Toni.  

E sentaram-se durante algum tempo a saborear a comida.  

— Já agora, estou à procura do dragão Drago. Sabes para que lado devo ir? — perguntou o Toni.  

O vampiro quase se engasgava com metade de uma banana.  

— Drago? O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo, e come tanto pessoas como animais. Mantém-te afastado dele! 

— Sim, é o que dizem. Mas vou procurá-lo mesmo assim — disse o Toni.  

— Bem, então deves ir por ali — disse o vampiro, apontando para mais dentro da floresta.  

— Muito obrigado. Se calhar ainda nos vemos outra vez — disse o Toni. Depois, levantou-se, pôs a mochila às costas e embrenhou-se na floresta.  

 

Não demorou muito até o Toni se arrepender de não ter ficado em segurança na Escola dos Póneis. Estava a ficar cada vez mais escuro e mais nevoeiro. E, de repente, ouviu uma gargalhada rouca. Mesmo à sua frente. 

 



Capítulo 4

O Toni sentiu calafrios na espinha quando ouviu a gargalhada rouca na floresta escura. E, como os póneis têm espinhas compridas, os calafrios eram mesmo muitos.  

 

"Quem poderá ser? E será que posso voltar para trás?" — pensou o Toni. Mas antes de poder responder-se a si próprio, apareceu uma bruxa à sua frente.  

A bruxa deu outra gargalhada rouca, alta e repugnante.  

— Não vais conseguir passar por aqui, amigo! 

— Mas... — tentou o Toni falar, mas a bruxa interrompeu-o antes de poder continuar.  

— Pelo menos, até me dares tudo o que tens! 

— Pronto. Está bem — disse o Toni, abrindo a mochila.  

— O que... O que estás a fazer? — perguntou a bruxa.  

— Estou a dar-te todas as minhas coisas? 

— Não é assim que funciona! Tens de protestar e recusar, e depois eu ameaço transformar-te numa pedra ou numa bomba de bicicleta, ou noutra coisa assustadora! 

— Bem... — disse o Toni.  

— Desculpa, é a primeira vez que estou aqui na floresta, e é também a primeira vez que conheço uma bruxa. Portanto, não sei como fazê-lo. Mas se é importante para ti ficar com todas as minhas coisas, podes ficar com elas. Não quero certamente ser transformado numa bomba de bicicleta. 

 

O Toni começou a tirar coisas da mochila. O cachecol, o caderno, a espada e tudo o resto.  

— Toma.  

O Toni deu as coisas à bruxa, mas ela abanou a cabeça ressabiada.  

— Se é assim, então já não quero. 

O Toni pensou que a bruxa era um pouco estranha. Mas depois encolheu os ombros e começou a pôr tudo outra vez dentro da mochila. Mas continuava a tentar perceber aquilo tudo.  

— Talvez queiras ajudar-me? Quero ir ter com o dragão Drago e lutar contra ele. Sabes o caminho? Porque eu na verdade não sei. 

A bruxa arregalou os olhos.  

— O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo, e come tanto pessoas como animais, E não gosta de refrigerantes! Não é assustador?  

— Sim. Muito. Mas prometi a mim mesmo que o encontraria. Podes dizer-me o caminho então? — perguntou o Toni.  

A bruxa voltou a dar aquela gargalhada de bruxa.  

— Sim, até podia. Mas não o vou fazer porque não me deste todas as tuas coisas! 
— Mas... — disse o Toni.  

— Sem mas nem meio mas. Não me deste todas as tuas coisas, e eu não me vou dar ao trabalho de te mostrar o caminho. 

A bruxa deu outra gargalhada, virou as costas e foi-se embora.  

 

O Toni suspirou. Não percebia o que tinha feito de errado. Estava prestes a amassar as coisas dentro da mochila quando reparou em algo que não tinha posto lá dentro. Era uma ampulheta. E uma carta. O Toni abriu a carta. Era do Joni, o pónei mais cinzento de todos e que era o melhor no trote na Escola dos Póneis.  

 

A carta dizia:  

"Para o Toni. Compreendo que queiras ver mais coisas no mundo do que a Terra Mágica Acima das Nuvens. Mas o teu lugar é com os póneis, e podes vir a arrepender-te. Se regressares à Escola dos Póneis antes de se acabar a areia na ampulheta, chegas a tempo da Parada dos Póneis onde todos nos tornamos póneis totalmente treinados. Se não o fizeres, não podes nunca mais voltar a fazer parte da comunidade dos póneis." 

O Toni dobrou a carta, olhou para a ampulheta e engoliu em seco.



Capítulo 5

O Toni andou, andou e andou. Ao mesmo tempo, pensava no que estava a fazer. O mais fácil seria dar a volta e regressar à Escola dos Póneis antes da grande Parada dos Póneis, sem dúvida. Mas o Toni queria ver mais do mundo. E, agora, também tinha prometido a si próprio que iria encontrar o dragão Drago. Portanto, era isso que tinha de fazer. E só DEPOIS é que voltaria depressa para casa para chegar a tempo da Parada dos Póneis e não perder todos os seus amigos.  

 

Enquanto o Toni estava perdido no meio dos seus pensamentos, saiu da floresta escura e chegou a uma praia. De repente, um cowboy saltou de trás de uma grande rocha.  

— Olá, amigo! 

— Olá — respondeu o Toni. 

— Bem, eu sou um cowboy — disse o cowboy. 

— Sim, quase consegui perceber pelo chapéu de cowboy. E pelas botas de cowboy. E pela estrela de xerife — disse o Toni.  

— Certo. 

— Podes ajudar-me? — perguntou o Toni.  

— Preciso de encontrar o dragão Drago e não sei o caminho. Sabes onde ele vive? 

— Ui! O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo, e come tanto pessoas como animais, E não gosta de refrigerantes! E é mau!  

O Toni acenou com a cabeça.  

— Sim, já ouvi dizer isso, mas quero encontrá-lo na mesma. Sabes onde ele mora? E podes dizer-me, porque estou com um pouco de pressa? 

— Sei sim senhor. Mas posso contar-te uma história primeiro? Adoro histórias! 

 

— Não tenho mesmo tempo... — começou o Toni a dizer, mas o cowboy simplesmente continuou: 

— Já se passaram muitos anos, mas uma vez percorri toda a América a cavalo porque me apaixonei por uma prospetora de ouro que tinha ido para o Alasca à procura de ouro. Então, também quis ir para o Alasca, mas as coisas não correram bem porque o meu cavalo se foi abaixo passados apenas dois dias. E depois...  

O Toni tentou interromper várias vezes, mas o cowboy falou, falou e falou. Estava imparável. Finalmente, a história terminou. O Toni estava bastante impaciente e pigarreou.  

— Que bela história. Mas estávamos a falar do dragão Drago... 

 

O cowboy voltou a interrompê-lo.  

— Sim, sim, já lá vamos. Mas, primeiro, não queres ver as minhas coisas? Olha, tenho uma bola saltitante, uma tesoura, um ióió e um balde e... 

O Toni tentou interromper novamente o cowboy, mas ele não parava de falar sobre as suas coisas. Quando ele finalmente parou, o Toni disse rapidamente: 

— Estou mesmo com muita pressa. Por favor, podes dizer-me para que lado ir para encontrar o Drago? 

— Sim, mas vamos jogar um jogo primeiro. Tenho o Quatro em Linha, o Ludo, xadrez, algumas cartas e... 

O cowboy falou e falou. Mas, desta vez, o Toni falou bem alto para o interromper: 
— Tenho mesmo de ir embora!  

 

E começou a andar depressa ao longo da praia. Não sabia exatamente onde estava nem para onde ir, mas de certeza que estava a caminho.  

 

Quando já tinha caminhado um bocado, a praia transformou-se num deserto. Um deserto grande e quente, e cheio de areia. O Toni parou e olhou em volta. Só conseguia ver areia. E mais areia. Se calhar estava perdido. Mas, de repente, semicerrou os olhos. O que era aquilo além, no horizonte? Um... barco pirata? 

Capítulo 6

O Toni caminhou em direção ao barco pirata. Era difícil andar na areia, e os seus pés pareciam muito pesados. Além disso, tinha andado o dia todo. Estava prestes a chegar ao barco quando ouviu um estrondo e algo pesado caiu mesmo ao lado do Toni. Uma bola de canhão! 

— Não dispares, só preciso de perguntar uma coisa — gritou o Toni, com esperança que alguém o ouvisse. Respondeu-lhe uma voz rouca.  

— Ups, desculpa, é a força do hábito. Nós, os piratas, gostamos de disparar contra pessoas com canhões. 

— Então és pirata? — perguntou o Toni com curiosidade, aproximando-se. No convés do barco pirata estava uma rapariga com uma pala num olho, um sabre grande, um brinco, DUAS pernas de pau e um papagaio no ombro.  

— Se eu sou pirata? Podes crer que sou. Sou Telma, a Terrível, governante dos sete mares, demónio do mar, conhecida e temida desde o Polo Norte até ao Cabo da Boa Esperança. 

— Uau. Fixe — disse o Toni.  

— Mas há algo que me está a fazer confusão. Porque é que o teu barco pirata está no meio do deserto? 

 

Telma, a Terrível, ficou mal-humorada de repente.  

— E tu? Porque é que TU estás num deserto? 

O Toni respondeu: 
— Principalmente porque estou perdido. Estou à procura do dragão Drago, mas na verdade não sei para onde ir. 

Telma, a Terrível, arregalou os olhos.  
— Mas que ideia tão parva. O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo, e come tanto pessoas como animais, e não gosta de refrigerantes, e é mau, e é tão forte que consegue pegar num barco pirata e atirá-lo para um deserto! 

 

O Toni engoliu em seco. O Drago parecia-lhe cada vez pior quanto mais ouvia falar dele.  

A Telma acenou enfaticamente com a cabeça. 
— Sim, foi o que me aconteceu. O Drago simplesmente atirou o meu navio para aqui, e agora não posso ir saquear para os sete mares. 

— Watashi wa kyandî ga hoshîdesu — gritou subitamente o papagaio.  

— Uau, o teu papagaio sabe falar? 

— Sim — respondeu a Telma, orgulhosa.  

— O que está a dizer? 

— Não sei, ele só fala Japonês. 

— Bem... — disse o Toni, desapontado. Mas e o Drago? Sabes onde ele mora? 

— Sim, vai por esse caminho — disse a Telma, apontando.  

 

O Toni agradeceu e pôs-se a caminho. Estava simplesmente a caminhar e a pensar que, desta vez, estava a ser surpreendentemente fácil encontrar o caminho, quando ouviu o vento a soprar. Primeiro muito, depois mesmo muito e, finalmente, o vento transformou-se num tornado e o Toni foi levado pelo ar a rodopiar sem parar...

Capítulo 7

O Toni rodopiou no tornado com uma velocidade e força que nunca tinha sentido antes. Para além dele, havia mais coisas a rodopiar: meias, livros, peças de puzzles, um baú e mil outras coisas. O Toni concentrou-se em garantir que nada atingisse a sua cabeça, mas também tentou procurar algo a que se pudesse agarrar.  

 

De repente, o vento parou e o Toni apanhou um barco de borracha que estava a voar ao seu lado. O Toni e o barco de borracha caíram num rio com um grande chape. 

 

"Bem... Isto podia ter corrido terrivelmente mal", pensou o Toni, mas depois reparou que o barco de borracha estava a andar mesmo muito depressa. E cada vez mais depressa. E mesmo à frente havia uma cascata. O Toni tentou desesperadamente usar os seus cascos para remar até à costa, mas por muito que remasse, a cascata aproximava-se a uma grande velocidade. O Toni fechou os olhos. E, depois, desmaiou.  

 

Quando o Toni voltou a abrir os olhos, viu que ele e o barco de borracha tinham dado à costa. O Toni estava encharcado, desde o focinho até à cauda, e todas as suas coisas estavam espalhadas na relva. Mas AINDA tinha a ampulheta e, mais importante ainda, estava vivo.  

 

— Para que estás aí deitado? — ouviu-se uma voz de repente. Atrás do Toni estava um homem alto com antebraços enormes, um bigode e cordas ainda maiores e material de escalada pendurado em todo o lado.  

— Bem, é uma história longa, mas basicamente estou a caminho do castelo do Drago. Sabes onde fica? 

O homem grande abanou a cabeça.  

— Isso parece-me uma ideia estúpida. O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo, e come tanto pessoas como animais, e não gosta de refrigerantes, e é mau, e é tão forte que consegue pegar num barco pirata e atirá-lo para um deserto! E tem muito mau hálito. 

O Toni interrompeu-o impacientemente.  

— Sim, sim, já ouvi dizer isso... muitas vezes até. Mas sabes onde o Drago mora? 

— Posso mostrar-te. Só precisamos de chegar ao topo daquela montanha ali, e depois eu aponto. Mas temos de escalar juntos! 1, 2, 3, agora! 

O Toni olhou para o cimo da montanha e acenou com a cabeça na direção de umas escadas. 

— Não podemos simplesmente ir pelas escadas? 

Ninguém respondeu, porque o homem gigante já estava a escalar a montanha. O Toni encolheu os ombros e subiu as escadas. Pelo caminho, encontrou uma macieira e apanhou uma bela maçã vermelha. Também fez uma sesta e assobiou um pouco com um pássaro antes de chegar ao cimo da montanha. 

 

O Toni estava à espera há meia hora, a apreciar o sol, quando o homem chegou ao topo da montanha, a suar e sem fôlego. Mas rapidamente ficou muito zangado. 

— Como raios chegaste cá acima antes de mim? 

O Toni estava prestes a explicar que tinha vindo pelas escadas e que era muito fácil do que escalar, mas o homem interrompeu-o.  

— Então vamos descer a montanha e ver quem chega lá abaixo primeiro! 

O Toni pensou depressa.  

— Está bem, mas primeiro aponta para o castelo do Drago. 

— Sim, sim. É ali! — disse o homem, apontando, e depois começou a descer a um ritmo assustador. O Toni abanou a cabeça e começou a caminhar na direção indicada. Em direção ao castelo grande e escuro...



Capítulo 8

O Toni estava muito bem disposto enquanto caminhava na direção do castelo. Parecia um pouco assustador... e parecia que saía fogo do telhado de vez em quando. Mas, pelo menos, agora estava no caminho certo e a chegar finalmente ao fim da sua viagem. Tinha conhecido muitas pessoas interessantes, mas agora pensava que estava na altura de chegar ao seu destino.  

 

Mal tinha acabado de pensar nisso, quase que tropeçava numas pernas compridas. Fora de uma tenda, estava sentado um feiticeiro com um chapéu pontiagudo. Eram dele as pernas.  

— Olá — murmurou o feiticeiro com uma voz fraca. E suspirou.  

— Olá, olá — disse o Toni, alegremente. E estava prestes a seguir caminho, porque estava mesmo com pressa. Mas o feiticeiro parecia tão triste, que o Toni parou.  

— Passa-se alguma coisa? 

— Não, não, continua o teu caminho —suspirou o feiticeiro. 

— Mas de certeza que está tudo bem? 

— Oh, é só que... é difícil explicar — disse o feiticeiro, numa voz ainda mais fraca.  

O Toni olhou para a ampulheta. Não tinha mesmo tempo para isto, mas, se o feiticeiro estava mesmo triste, queria ajudá-lo.  

— Podes tentar explicar? 

O feiticeiro suspirou outra vez. Tão profundamente, que a tenda até abanou.  

— Sou um feiticeiro, isso digo-te eu. 

 

O Toni acenou com a cabeça. Isso já tinha percebido.  

— E é por isso que consigo fazer aparecer qualquer coisa. Tudo o que há no mundo. 

— Isso parece excelente — disse o Toni.  

— Seria de esperar que sim — disse o feiticeiro.  

— Mas... quando consegues fazer aparecer qualquer coisa no mundo, nunca queres nem precisas de nada. Não faço a mínima ideia do que quero para o meu aniversário. E, quando podemos ter tudo o que quisermos no mundo, é fácil sentirmo-nos aborrecidos. 

O Toni pensou por um momento.  

— Talvez só precises de um passatempo? 

O feiticeiro animou-se um pouco.  
— Um passatempo? Sim... poderá ser uma boa ideia. 

O Toni estalou os dedos — e isto normalmente é difícil quando se tem cascos e não dedos. Teve uma ideia ainda melhor. Para além de ser agradável ter companhia na sua viagem, também poderia ser bom ter um feiticeiro como amigo se o Drago se revelasse tão perigoso como todos diziam.  

— Talvez o seu passatempo possa ser uma aventura? Quer vir comigo numa aventura? 

— Essa é uma ideia FANTÁSTICA, meu jovem amigo. Vamos lá — disse o feiticeiro, levantando-se num só salto. 

— Não queres sequer saber qual é a aventura? — perguntou o Toni.  

— Não, podes dizer-me pelo caminho. Anda, vamos. 
 

E, então, o Toni e o feiticeiro partiram numa aventura. Exatamente 24 passos depois, o feiticeiro parou.  

— O que se passa? 

O feiticeiro sentou-se numa pedra.  

— Acho que é demasiado difícil andar assim. Se calhar já não quero ir. E também estou cansado. 

O Toni estava prestes a dizer alguma coisa, mas foi interrompido por um ronco profundo. O feiticeiro tinha adormecido. O Toni suspirou e tapou o feiticeiro com a sua manta de feiticeiro. Agora, o Toni estava sozinho outra vez.  

 

Mas não por muito tempo. Porque, de repente, ouviu cascos atrás dele. E uma voz que gritava — Pára! Ou vais arrepender-te!



Capítulo 9

O Toni olhou por cima do ombro com medo.  

— Pára! — gritou a voz de novo.  

O Toni não sabia bem o que devia fazer. Por um lado, parecia mais lógico parar quando alguém gritava "Para!". Por outro lado, os gritos soavam bastante zangados. O problema acabou por se resolver por si mesmo, porque enquanto o Toni se esgueirou na direção do castelo do Drago, foi ultrapassado por um enorme cavalo com um verdadeiro cavaleiro no dorso. O cavalo grande parou mesmo em frente do Toni, que bateu com a testa na barriga do mesmo.  

 

— Ei, desculpa — disse o Toni, apesar de não ter sido ele a parar no meio da estrada. O cavalo grande olhou furiosamente para o Toni. O cavaleiro no dorso do cavalo, por sua vez, começou por ser todo sorrisos, mas depois desembainhou a sua espada de uma forma bastante violenta e apontou-a para o Toni.  

— Prepara-te para morrer! 

— O... o quê? — disse o Toni, assustado.  

— Bem, tu és um dragão, e eu sou um cavaleiro, e os cavaleiros lutam contra os dragões e matam-nos! — disse orgulhosamente o cavaleiro.  

— Mas, mas... 

O Toni achou que estava tudo a acontecer demasiado rapidamente.  

— Não sou um dragão, sou um pónei. 

— És um dragão, sim senhor! — vociferou o cavaleiro.  

— Posso garantir-te que não sou. Em primeiro lugar, os dragões são verdes e, como podes ver, eu sou azul — explicou o Toni.  

O cavaleiro semicerrou os olhos.  

— Hum... mais verde azulado, diria eu. 

O cavaleiro apontou para a sua espada.  

— Além disso, tens asas. Tu ÉS um dragão. 

— Não sou juro! — disse o Toni desesperadamente.  

— As minhas asas são minúsculas, nem consigo voar. Os dragões conseguem. Olha, e também não consigo cuspir fogo! 

O Toni bufou e soprou e mostrou que nenhum fogo saía da sua boca.  

— És simplesmente um dragão, e, por isso, terei de te matar. Estas são as regras — disse o cavaleiro simplesmente, levantando a sua espada.  

 

O Toni não teve tempo para pensar, apenas começou a correr o mais rápido que as suas pequenas pernas de pónei conseguiam. Infelizmente, não era demasiado rápido em comparação com o cavalo grande do cavaleiro. Estava mesmo atrás dele. O Toni esbarrou num arbusto onde esperava que o cavalo grande não conseguisse caber. Mas conseguia. O Toni correu aos ziguezagues para confundir o cavaleiro e o cavalo. Não resultou. De repente, o Toni chegou a uma planície onde não havia nenhum esconderijo. Correu o mais rápido que pôde, mas o cavalo estava mesmo atrás dele. E depois o Toni caiu. Nem sequer teve tempo para pensar se se tinha magoado. Apenas fechou os olhos e pensou "Estou acabado agora". 

 

 

Capítulo 10

— Peço desculpa, mas o é que se passa? 

O Toni abriu os olhos cuidadosamente. A voz não vinha do cavaleiro. Quer dizer, não vinha do cavaleiro com a espada grande que queria matar o Toni por pensar que ele era um dragão Era uma voz feminina.  

 

O Toni olhou para cima. No topo de uma torre alta estava uma princesa muito bonita. Com as mãos nas ancas e o sobrolho franzido.  

— Sim, estou a falar contigo. O que estás a fazer?  

A princesa apontou para o cavaleiro, que tinha desmontado do cavalo. Ele, por sua vez, apontou para o Toni com a espada.  

— Bom dia, linda princesa. Eu estava prestes a matar um dragão muito, muito perigoso. 

O Toni estava prestes a dizer algo, mas o cavaleiro já tinha levantado a sua espada. Por isso, o Toni levantou-se e começou a correr outra vez. Correu à volta da torre da princesa, com o cavaleiro mesmo no seu encalço. As pernas no Toni começaram a ficar cansadas, mas as do cavaleiro aparentemente não, porque ele corria e corria. E isto continuou até se ouvir um estrondo e o cavaleiro dizer "Ai" de repente, esfregando a parte de cima do capacete.  

 

— O que foi isto? — gritou para a princesa.  

— Foi uma laranja que atirei à tua cabeça. Não estás a ouvir, e tive de chamar a tua atenção de outro modo. 

A princesa apontou para o Toni.  

— Ele é um pónei, não um dragão. 

O cavaleiro sorriu e abanou a cabeça.  

— Lamento corrigir uma princesa verdadeira, mas estás enganada. É, claramente, um dragão. 
— Não é nada. 

— É sim. 

— Não é nada. 

 

E assim continuaram. O Toni estava prestes a pensar se conseguiria simplesmente sair sem ser visto, mas o cavalo grande e zangado do cavaleiro bloqueou o seu caminho.  

Depois, a princesa pareceu ter tido uma ideia.  

— Olá, senhor cavaleiro? Sabes qual é o trabalho mais importante de um cavaleiro? Mais importante do que perseguir dragões? 

— Hum... não... acho que não — murmurou o cavaleiro.  

— Bem, é cortejar princesas! 

— Hum... sim... cortejar... o que é isso exatamente? 

A princesa suspirou.  

— Não és um cavaleiro lá muito inteligente, pois não? Cortejar significa que tens de me fazer apaixonar por ti. Por exemplo, fazendo-me uma serenata. 

— Sim, claro. Isso consigo fazer — disse o cavaleiro, começando a trautear e a fazer aquecimentos vocais.  

 

A princesa piscou o olho ao Toni.  

— É melhor ires andando, não? Para onde vais, já agora? 

— Obrigado, princesa. Bem, agora parece um bocado estúpido dizê-lo, mas vou a caminho do castelo do Drago. 

A princesa arregalou os olhos.  

— Drago? O Drago é incrivelmente perigoso e cospe fogo... 

O Toni levantou um casco no ar.  

— Vou parar-te aí mesmo. Eu sei que o Drago é perigoso e tudo isso. Mas prometi a mim mesmo que o encontraria. Adeus, princesa. E obrigado!



Capítulo 11

O Toni escapou-se o mais rápido e silenciosamente possível.  

"Que princesa tão querida", pensou com os seus botões enquanto caminhava. E pensou em todas as pessoas engraçadas, simpáticas e estranhas que tinha conhecido na sua aventura. Tanto o ninja que guardava a ponte, o vampiro que não suportava a luz e tinha medo da escuridão, da bruxa má, do cowboy falador, da Telma pirata, e daquele montanhista que queria fazer de tudo uma competição.  

 

Tinha sido uma viagem emocionante e ele tinha vivido mais coisas do que alguma vez tinha vivido na sua vida.  

 

Mas agora as coisas estavam a ficar sérias. O Toni já não estava muito longe do castelo do Drago. Era grande e escuro, e sim, de vez em quando parecia que saía fogo do telhado.  

 

O Toni parou. Estava muito longe de casa. Será que devia voltar para trás? E ir para casa, para a Escola dos Póneis, e trotar a par de todos os outros durante o resto dos seus dias? O Toni pensou durante muito tempo. Não. Não, não ia fazer isso. Tinha prometido a si próprio que iria sair de lá e encontrar o dragão Drago e lutar contra ele. Então era isso que ia fazer. O dragão era muito perigoso, todos diziam, por isso na verdade ele estava a fazer um favor ao mundo. Afinal de contas, parecia que o Drago era incrivelmente perigoso e cuspia fogo, e comia tanto pessoas como animais, e não gostava de refrigerantes, e era mau, e era tão forte que conseguia pegar num barco pirata e atirá-lo para um deserto! E tinha um hálito horrível. E, provavelmente, tinha truques de morder durante as lutas, agora que o Toni pensava nisso.  

 

O Toni continuou, mas muito devagar. Era como se as suas pernas não quisessem acompanhá-lo, mas sim ficar onde estavam. O Toni olhou para os seus cascos.  

— Vá lá, amigos, vai correr tudo bem. 
 

Caminhou e caminhou, e chegou ao portão do castelo do Drago. Era um portão muito grande e bastante assustador, e o Toni não sabia realmente se queria saber o que estava do outro lado. No entanto, tocou à campainha. Na verdade, pressionou-a muito ao de leve, mas soou como mil grandes sinos a baterem juntos.  

 

E, depois, ouviu passos pesados. E alguém a abanar a fechadura. Então, lentamente e a ranger, a porta começou a abrir-se...



Capítulo 12

O Toni susteve a respiração. A porta abriu-se e o dragão Drago apareceu à frente dele. Todo ele era sorrisos.  

— Olá, quem és tu? Queres entrar? Tens fome? Posso fazer pipocas. 

O Toni deixou de suster a respiração e, em vez disso, começou a abrir e a fechar a boca.  

— Hum... bem... sim, por favor, gostaria de entrar. E também estou com muita fome. 
— Entra, então. Na verdade, acho que também tenho alguns refrigerantes no frigorífico, se tiveres sede. 

— Hum, sim, obrigado — disse o Toni.  

 

O Drago mostrou-lhe orgulhosamente o seu castelo e parecia mesmo muito simpático. O Toni achou isso muito estranho. Ganhou coragem e disse: 

— Ei, Drago? 
— Sim? 

— Eu pensava que eras... perigoso. E que não gostavas de refrigerantes e isso. 

O Drago sorriu.  

— Ah, sim, muita gente pensa isso. Parece que as pessoas gostam de falar mal de coisas de que têm medo. Eu próprio acho que sou bastante simpático, mas sempre que conheço alguém, eles fogem, por isso nunca lhes posso dizer que não sou perigoso de todo. Também nunca ninguém me visita. Na verdade, és o primeiro visitante de sempre.  

— Que pena — disse o Toni, muito sério.  

O Drago encolheu os ombros.  

— Bem, é o que é. Mas há muitas coisas fixes em ser um dragão. Por exemplo, posso fazer magia! A magia dos dragões é poderosa. Queres ver? 

O Toni queria.  

— O que vou fazer aparecer? Tu decides. 

O Toni pensou por um momento.  

— Um gelado? — sugeriu. Tanto porque queria ver um gelado a aparecer do nada, como porque podia comer um.  

— Excelente ideia, eu também adoro gelado! Estás preparado? 

O Toni estava.  

— 3, 2, 1, e já está! — disse o Drago, agitando a sua varinha mágica.  

Apareceu uma pequena nuvem de fumo e, no meio do chão estava... uma bicicleta.  

— Raios. Espera um bocado, vou tentar outra vez 3, 2, 1, e já está! 

O Drago voltou a agitar a sua varinha mágica. E fez aparecer uma cartola.  

— Hum, estou um pouco destreinado, mas vou conseguir. Espera um momento. 3, 2, 1, e já está! 

E fez aparecer uma lâmpada. E várias outras coisas. Na verdade, nunca conseguiu fazer aparecer um gelado. Mas não importava, porque era muito divertido ver magia acontecer. O Drago e o Toni comeram pipocas e beberam refrigerantes, e divertiram-se muito. Até que, por acaso, o Toni olhou para a ampulheta na sua mochila. A areia não parava de cair, não restava muito tempo. E teve uma ideia! 

— Drago? Somos amigos, certo? 

O Drago deu um pequeno arroto, e saiu um pouco de fogo da sua boca. E o Toni assustou-se.  

— Ups! Desculpa, é um pouco difícil controlar este fogo. Bem... Não nos conhecemos há muito tempo, mas sim, somos totalmente amigos. 

— Podes ajudar-me com uma coisa? 

— Claro! 

— Ótimo. Obrigado, Drago. Podes fazer uma mala? Vamos embora agora! 





Capítulo 13

O Drago e o Toni puseram-se a caminho.  

— Porque é que temos de ir até à Escola dos Póneis, Toni? — perguntou o Drago.  

— Quero dizer aos outros póneis o quão maravilhoso e mágico é o mundo. Tudo o que eles vão fazer até ao resto dos seus dias é trotar. Consegues imaginar? Que isso era a única coisa que irias fazer a tua vida toda? 

— Não, porque seria incrivelmente aborrecido. 

— É isso mesmo Drago, e é por isso que temos de os impedir de trotar para sempre! Tive uma ideia: será que poderia sentar-me nas tuas costas para voarmos até lá? 

O Drago parou e ficou sério de repente.  

— Não, não pode ser. Os dragões NUNCA voam com ninguém às costas. Simplesmente não o fazemos, é uma regra. 

O Toni pensou por um momento.  

— Pronto. Bem, então tenho outro plano: vamos fazer o mesmo caminho que eu fiz, que é o caminho oposto daquele que eu fiz para chegar ao teu castelo. 

O Drago assobiou. Fazia-o muitas vezes quando alguém dizia algo inteligente, e o Toni fazia-o muitas vezes. O Toni rebuscou na sua mochila. E encontrou um par de óculos e um bigode falso, que pôs no Drago.  

 

— Para que é isto? — perguntou o Drago.  

— Vamos passar por um cavaleiro que gosta bastante de matar dragões, por isso vamos disfarçar-te. 

— Um cavaleiro! — gritou o Drago, tão alto que saiu fogo da sua boca e ele caiu do topo de um abeto.  

— Ele que venha! Os dragões não têm medo de ninguém nem de nada... talvez só de serpentes. Mas cavaleiros não! 

O Toni deu uma palmadinha no ombro do Drago.  

— Claro que não tens medo de nada, mas a verdade é que não temos tempo para combater com o cavaleiro. Afinal, temos de voltar para a Escola dos Póneis. 

 

Depois, o Toni e o Drago passaram sorrateiramente pelo cavaleiro que ainda estava a cantar para a princesa. Mas o cavaleiro não se deixou enganar pelo disfarce astuto do Toni. Ele conseguia ver que o Drago era um dragão e desembainhou imediatamente a sua espada.  

— Agora estás feito, dragão! — gritou.  

— Ah estou, é? — disse o Drago, inchando o peito. O cavaleiro fez o mesmo e aproximou-se cada vez mais com a espada em riste. Mas, antes de colidirem, a princesa guinchou tão alto que todos os vidros da torre se partiram, e tanto o Drago como o cavaleiro pararam. O Toni e a princesa puseram-se no meio do Drago e do cavaleiro.  

— Mas o que vem a ser isto? — perguntou o Toni.  

— Ele é um dragão e eu sou um cavaleiro. É por isso que vamos lutar — disse o cavaleiro. 

— Para quê? — perguntou o Toni. 

— Como assim? Eu sou um dragão e ele é um cavaleiro, e é por isso que temos de lutar — disse o Drago.  

— É assim que tem de ser — disseram ao mesmo tempo o Drago e o cavaleiro, e ambos acharam engraçado.  

— Meu caro cavaleiro — interrompeu a princesa. Segundo sei, o pónei Toni e o dragão Drago estão com pressa de voltar à Escola dos Póneis. 

— Ok — disse o cavaleiro. 

— E eu estava a gostar muito da tua serenata — continuou a princesa. 

— Ah sim? — perguntou o cavaleiro.  

— Sim! — disse a princesa.  

— A sério? — perguntou novamente o cavaleiro.  

— Vês aquela pequena poça de água ali? — continuou a princesa, apontando para uma poça de água muito pequena. O cavaleiro foi até lá inspecioná-la.  

— São as minhas lágrimas, que derramei por ter ficado tão comovida com a tua serenata. 

— São mesmo? — perguntou o cavaleiro. 

— Sim! Estavas prestes a conquistar o meu coração. E, se continuares, podemos viver felizes juntos até ao fim dos nossos dias. 

— Podemos? Isso soa-me bem — disse o cavaleiro.  

— Então vou continuar a cantar, assim que limpar o sebo a este dragão. 

— Não! Não posso apaixonar-me por um cavaleiro que quer lutar contra um dragão tão bonito como o Drago — disse a princesa.  

O cavaleiro olhou para o Drago e depois para a princesa. E depois para o Toni e para o Drago.  

— Também acham que eu canto bem? — perguntou ele. 

— Sim, sem dúvida! — disse o Toni. 

— Não, tu cantas mal — disse o Drago.  

— O que é que disseste? — gritou o cavaleiro, vermelho de fúria.  

 

O Toni foi depressa para a beira do Drago, para fazê-lo entender o que se passava. O Drago pigarreou.  

— Bem... Podes não estar a cantar muito bem agora, mas a prática leva à perfeição! E, se queres conquistar o coração da princesa, se calhar é melhor não lutarmos. Em vez disso, continua a praticar as tuas canções. 

O Toni sussurrou — Bem pensado, Drago. 

— Vou só sentar-me por um momento e fechar os olhos. Tenho-me perguntado qual é o objetivo de um cavaleiro na sua vida. Será combater dragões ou conquistar o coração da princesa? — o cavaleiro suspirou e sentou-se encostado à torre com os olhos fechados. A princesa piscou o olho ao Toni, que se virou para o Drago: 

— Acho que vamos continuar o nosso caminho, Drago, e a resposta à pergunta do cavaleiro vai responder-se sozinha.  

 

E, assim, afastaram-se da torre, deixando o cavaleiro a pensar em paz, enquanto a Princesa o beijava suavemente na face. Isto foi agradável, sentiu o cavaleiro.   



Capítulo 14

 

Depois de uma tal rodada de cavaleiros e princesas, o Drago pensou que seria bom fazer uma pausa para comer, massajar a barriga, fazer um lanche e comer uma sobremesa. Depois, voltar a massajar a barriga e fazer outra pausa. Mas não havia tempo para isso, pois o Toni olhou para a ampulheta e, de repente, achou que o tempo estava a passar terrivelmente depressa, dada a distância a que ficava a sua casa. O Toni estava prestes a partilhar as suas preocupações com o Drago quando foi interrompido por um ronco muito alto.  

 

— É o feiticeiro! — gritou o Toni, tapando a boca com a mão, porque na verdade queria apenas sussurrar.  

— Adormece frequentemente por ter tentado fazer tudo várias vezes — sussurrou o Toni.  

— Não temos mesmo tempo para falar com ele. Seria melhor se nos esgueirássemos, Drago. Consegues?  

O Drago, sem querer desapontar o seu amigo ou dar a entender que era algo que ele não conseguia perceber, acenou com a cabeça. E assim seguiram em pezinhos de lã.  

 

O problema é que os dragões são incapazes de andar em pezinhos de lã. O Drago bem levantou os seus pés muito alto, mas quando um deles chegou ao chão ouviu-se um grande estrondo. E aconteceu o mesmo com o outro pé. E assim continuou, até o feiticeiro acordar. 

 

— QUEM é que pisa tão forte e me acorda no meio do meu sono de feiticeiro? — perguntou ele, pondo os seus óculos para ver melhor  

— Toni? Voltaste? E quem trazes contigo? Um dragão? Ora bem, ora bem! Há mais de 200 anos que não via um dragão. É um belo exemplar. Isso digo-te eu. 

 

— Obrigado, também tens uma barba muito bonita — disse o Drago. — Chamo-me Drago.  

— E eu Glemlis — respondeu o feiticeiro.  

— É bom ver-te novamente, Glemlis, mas estamos um pouco ocupados e temos de ir andando — disse o Toni, apontando para a sua ampulheta. 

 

— Sim. Claro, toda a gente está ocupada com algo. E é assim que deve ser. Mas tenho andado a pensar sobre aquilo que disseste sobre ter um passatempo, Toni. Espera um minuto... 

O Glemlis foi à sua tenda e procurou afincadamente. O Toni olhou para o Drago. 

— É agora. Vamos embora. 

— Oh, não podemos fazer isso. Ele quer mostrar-nos alguma coisa. Além disso, ele disse que eu era um belo exemplar. Não ouviste? Vamos ver o que ele vai desencantar. 

 

O Toni sentou-se e olhou fixamente para a ampulheta, onde a areia corria sem parar, enquanto o